O Governo das Secas: Problematizações, Respostas Político-Técnicas e Agendas em Circulação entre Cuyo e Argentina
DOI:
https://doi.org/10.48160/22504001er33.754Palavras-chave:
Escassez de água, Geografia, História ambiental , SecaResumo
Nas últimas décadas, as secas deixaram de ser fenômenos meteorológicos isolados para se tornarem eventos recorrentes, intensificados pela crise climática global. Na Argentina, esse processo se manifesta tanto na diminuição das precipitações quanto no recuo das nevascas andinas, reconfigurando profundamente as dinâmicas hídricas. Diante desse cenário, o dossiê propõe abordar a seca a partir de uma perspectiva que ultrapassa o enfoque hidrometeorológico, incorporando dimensões sócio-históricas, político-institucionais e técnicas. Ele se insere em um projeto de pesquisa que analisa como as secas foram construídas como objeto de governo e de conhecimento, organizando a análise em torno de três eixos: a problematização do fenômeno, as respostas político-técnicas do Estado e a circulação de agendas científicas e acadêmicas entre diferentes escalas.
No processo de institucionalização da gestão da água na Argentina desde meados do século XX, destaca-se o papel de organismos científicos e de burocracias hidroclimáticas na configuração de quadros de compreensão e de ação frente à escassez. Ao mesmo tempo, evidencia-se a coexistência de diferentes problematizações segundo regiões e campos disciplinares, com predominância de enfoques centrados na região pampeana e na produção agropecuária. Diante disso, o dossiê busca descentralizar o olhar, incorporando o caso das províncias de Cuyo, onde a dependência das águas de origem nival e a histórica institucionalização da gestão hídrica configuram uma problemática específica.
Por fim, ao apontar as limitações dos enfoques dominantes diante de cenários recentes de megasseca —agravados tanto pelas mudanças climáticas quanto por tensões políticas e institucionais—, enfatiza-se que as secas não podem ser compreendidas apenas como déficits naturais, mas como fenômenos atravessados por disputas sociais, desigualdades territoriais e dinâmicas produtivas. Os artigos que compõem o número, a partir de perspectivas históricas, jurídicas, socioambientais e bibliométricas, contribuem assim para uma compreensão mais ampla e complexa do governo das secas.